No fim de semana acabei de ler o "Object Thinking", um livro escrito por David West e editado pela MSPress. Um livro muito peculiar e interessante. Peculiar desde já devido ao background do autor, com formação académica em cultura oriental e história sul-asiática, antropologia cultural, antropologia cognitiva e inteligência artificial (vá lá!). Para quem vem falar de objectos e de como fazer software com base no paradigma OO, não está nada mal...
A parte mais interessante do livro, do meu ponto de vista, é a importância que ele dá à história, filosofia e cultura como base para entendermos a nossa maneira de pensar e a forma como encaramos o desenvolvimento de software. De acordo com o autor, existem duas correntes de pensamento que percorrem não só a nossa comunidade mas toda a sociedade ocidental. De um lado estão os racionalistas, que têm como principal inspirador Descartes. Os racionalistas defendem que o mundo se pode explicar com regras precisas e claras, à semelhança da matemática. Tudo aquilo que não tem regras definidas é porque estas simplesmente ainda não foram descobertas. Do outro lado estão os hermenêuticos, como Heidegger ou Vygotsky, que acreditam que nem tudo se explica por regras formais, sobretudo os comportamentos ou acontecimentos mais complexos. Estes têm uma visão mais orgânica das coisas, acreditam que muita da complexidade emerge naturalmente de comportamentos mais simples, de forma aparentemente descoordenada e fruto das forças em actuação. Claramente, os racionalistas estão em maioria e perpassam toda a sociedade ocidental. Como se devem ter apercebido, os defensores de processos e metodologias formais como o RUP ou o CMM são racionalistas e os movimentos ágeis como o XP ou o SCRUM são vistos como hermenêuticos.
É claro que podemos sempre dizer que não somos nem uma coisa nem outra, mas do meu ponto de vista tendemos sempre a cair mais para um lado ou para o outro. Enquanto li o livro, fui pensando nisto e tentando colar as pessoas da área da informática que conheço a um lado ou ao outro e era possível distingui-las mais ou menos claramente. Eu situo-me do lado dos hermenêuticos, não há muitas dúvidas. Filosoficamente agrada-me mais e de um ponto de vista mais prático, acredito que as metodologias ágeis têm mais potencial para a minha actividade do que as formais.
Também gostei bastante do livro porque, por um lado gosto muito de filosofia e história porque nos ajudam a compreender porque é que somos como somos, por outro porque faz uma abordagem do desenvolvimento de software original e provocadora. E tudo o que é original e provocador faz-nos pensar... ;)
Quando o livro chega à parte mais concreta, da descoberta, definição e encenação de objectos (utilizando a terminologia do livro), confesso que fiquei com sentimentos contraditórios. Por um lado gostei muito parte sobre descoberta e definição de objectos e sobre o que deve ser um objecto. Por outro lado, não fiquei tão entusiasmado com a encenação.
Em resumo, altamente recomendado, quanto mais não seja pela cultura geral. A ignorância é uma coisa muito triste. Acabar com a nossa própria ignorância é uma tarefa num crescendo sem fim, porque quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos, mas a que nos devemos entregar com todo o entusiasmo que reunirmos. Tenho dito! ;)
Posted
27-6-2004 17:15
por
João Hugo Miranda